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NA FIESP, MAÍLSON DA NÓBREGA FALA EM REVOLUÇÃO NO FINANCIAMENTO DO AGRONEGÓCIO

“Estamos no limiar de uma revolução no financiamento agrícola, que nem todos perceberam”, disse nesta segunda-feira (6 de março) na Fiesp o ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega. Ele participou de reunião do Conselho Superior do Agronegócio da Fiesp (Cosag), fazendo exposição com o tema “Financiamento da Agricultura Brasileira”.
Nóbrega explicou a nova tendência para as fontes de recursos do crédito rural. A letra de crédito do agronegócio tende a se tornar a principal fonte de financiamento do setor, disse. Já responde por 12% e experimenta crescimento muito grande. O mercado de capitais será o grande financiador, por meio de equity e de debt, afirmou. Nos EUA, ele responde por mais de 80% do crédito. A securitização, segundo o ministro, também ganhará participação.
O BB continuará por muito tempo como líder, na opinião de Nóbrega, pela tradição, experiência, capilaridade e capacidade de captação de recursos.
Ele apresentou ideias para um novo sistema de financiamento rural. Uma delas é o Estado atuar nas falhas de mercado. Subsídios ao crédito rural deveriam existir em casos específicos, com valores inscritos no Orçamento da União e avaliação permanente.
A fonte básica deve ser o mercado de capitais, sem direcionamento oficial.
Nóbrega defende ainda o fim do crédito obrigatório, em contexto de redução substancial do direcionamento de depósitos compulsórios dos bancos e de busca de nível civilizado para a taxa Selic.
O Plano de Safra deve se transformar em conjunto de políticas para incentivar as atividades rurais, em vez de ser voltado ao crédito, disse.
Jacyr da Costa Filho, presidente do Cosag, ressaltou a importância do tema discutido na reunião, que teve também a participação, como debatedores, de outros especialistas em crédito rural.
Tarcisio Hübner, vice-presidente de Agronegócios e Micro e Pequenas Empresas do Banco do Brasil – e, a convite de Paulo Skaf, presidente da Fiesp e do Ciesp, membro do Cosag -, disse que o crédito subsidiado caminha para o fim, o que pode demorar alguns anos. Explicou que o banco busca novas opções, como a letra de crédito do agronegócio, que já representa carteira de R$ 130 bilhões no BB. Lembrou que os bancos são capazes de suprir apenas uma pequena parte do que o agronegócio precisa para se financiar. “É um desafio para os bancos acompanhar esse aumento de produtividade.”
Fabiana Alves, diretora executiva do Rabobank Internacional Brasil S/A – Área Rural, explicou que o banco, com origem em cooperativas na Holanda, opera há mais de 100 anos. No Brasil está no agronegócio há 10 anos, com R$ 3 bilhões para 1.200 agricultores dentro da porteira e R$ 5 bilhões fora da porteira. O segundo capítulo da história do agronegócio, disse, será a absorção da tecnologia de gestão, disse Alves, com a adoção de controles e governança.
Alexandre Figliolino, diretor da MBAgro – MB Associados, considera que ainda falta uma rede de proteção para a agricultura, o que permitirá tornar o crédito rural mais próximo do crédito normal. Destacou a necessidade de um banco de dados, para conhecer as condições financeiras dos produtores, e a adoção de planos plurianuais de safra. Para aumentar a oferta de seguro, defende a criação de um fundo de catástrofes, para haver interesse das seguradoras. Essa rede de proteção, disse Maílson da Nóbrega, é fundamental para a transição de sistemas de financiamento. É preciso estabilizar a renda do agricultor e reduzir seus riscos.
Ivan Wedekin, da Wedekin Consultores, lembrou que o crédito rural sempre foi tratado como prioridade pelos diferentes governos, mesmo nas crises. Os títulos do agronegócio, com destaque para o certificado de recebíveis do agronegócio, já não são novidade. Wedekin projeta crescimento de 1 milhão de hectares por ano na área plantada.
Também participante da reunião, como debatedor, Marco Aurélio Borges de Almada Abreu, diretor-presidente do Bancoob, destacou a importância do sistema de crédito cooperativo. Há 20 anos os bancos cooperativos crescem ininterruptamente, disse. Em 1995 tinham 0,35% do mercado, e agora têm 5% (10% no financiamento à agricultura). Maílson da Nóbrega acha que em algum momento vai haver um banco cooperativo de crédito no Brasil com as características dos similares do Japão, França e Holanda, com a fusão das instituições atuais.

O ex-ministro Maílson da Nóbrega durante reunião do Cosag, da Fiesp. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

História do crédito rural
Nóbrega lembrou que sua carreira é ligada ao crédito rural. Explicou a evolução do crédito rural, a partir da década de 1930, com o penhor rural da safra pendente, de 1936. Em 1938 surgiu a Carteira de Crédito Rural e Industrial do Banco do Brasil. Sem ter as mesmas condições, houve a tentativa de imitar o Farm Credit System dos EUA.
De 1945 a 1964 o BB se torna o centro do sistema, com empréstimos rurais descontados na Carteira de Redescontos. Com o surgimento do Banco Central, implantado em 1965, há profundas mudanças no setor financeiro.
A lei 4829/65 institucionalizou o crédito rural, com a obrigatoriedade de aplicação de depósitos à vista em financiamento à agricultura. O BC criou a Diretoria de Crédito Rural e Industrial, o que Nóbrega considera uma distorção.
Só que no crédito rural a reforma não aconteceu, por problemas na interpretação da lei. Depois foi institucionalizada a “conta de movimento” do BC no BB, que por mais de 20 anos foi a mais importante fonte de financiamento rural. O BB passou a ter suprimento automático de recursos.

Mailson

Explodiu a expansão do crédito rural, com a atuação do BB, do BC e de bancos comerciais. Para haver recursos para os bancos oficiais, o crédito passou a alimentar a dívida pública.
O sistema acabou ficando insustentável. O crédito rural tinha o foco total, e outros mecanismos de incentivo à agricultura foram negligenciados. Nos anos 1980, com juros fixos em meio a uma inflação crescente, o volume de subsídios se agigantou. A tentativa de correção não funcionou.
O governo passou a estudar o crédito rural em outros países, especialmente EUA e França.
Depois da crise da dívida e dos acordos com o FMI, 150 técnicos liderados por Nóbrega sugeriram seis medidas saneadoras, entre elas a autorização para o BB funcionar como um banco normal, podendo captar recursos em caderneta de poupança rural. Foram implantadas em 1986 e 1987. E o BB, disse Nóbrega, se tornou uma excelente instituição financeira, competitiva e moderna.
A existência da Embrapa e o sistema Embrater tiveram papel essencial numa revolução no campo, assim como a expansão da infraestrutura no Centro-Oeste.
Falido, o sistema de crédito rural pouco deixou em seu lugar, mas o agronegócio se saiu bem com o pouco que havia no país – e com baixíssima intervenção do Estado. Em 50 anos a área cultivada dobrou, e a produção se multiplicou por 4 a 5. Com a tecnologia da Embrapa e de outras instituições, com o plantio direto, a agricultura de precisão, liderança do empreendedorismo, o Brasil se tornou potência rural, e o agronegócio se converteu em fonte relevante de crescimento econômico e de geração de superávit na balança comercial.

Fonte: Fiesp – Graciliano Toni, Agência Indusnet Fiesp

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